A GRÁVIDA E A PARIDA
PRÉ-PARTO E PÓS-PARTO NOS ROMANCES ESTE É O MEU CORPO (MELO, 2004) E THE ANATOMY LESSON: A NOVEL (SIEGAL, 2014)
Resumo
Neste ensaio, analisamos os aspectos narrativos que se interseccionam na discriminação sofrida pelas personagens Flora (grávida) e Eduarda (parida) em um período de transformação do corpo feminino e fragilidade emocional. O pré-parto é representado em The Anatomy Lesson: A novel, escrito pela novaiorquina Nina Siegal (2014), que ambientaliza a narrativa no século XVII, especificamente no ano 1632; já o pós-parto é representado por meio da morta personagem, Eduarda, em Este é o Meu Corpo, da escritora portuguesa Filipa Melo (2004). Apesar de estarem localizados em épocas e regiões diferentes nas narrativas – uma grávida holandesa do século XVII (Siegal, 2014), e uma mulher puérpera do século XX (Melo, 2004) – as relações de exclusão e desrespeito são determinantes, visto que a grávida (Flora) é desprovida do direito de ser uma gestante admirável, por ser a companheira de um ladrão condenado – injustamente – à morte; e a parida (Eduarda) é destituída do direito de ficar ilnesses (adoecida), por não aceitar a maternidade, mesmo tendo um histórico de sofrimento com a insensibilidade do pai, o descaso do companheiro com a gravidez e o assassinato desumano em que se finda. Assim, a partir do estudo comparativo entre as obras e a intertextualidade da medicina ginecológica, apoiados em Stelet (2021), Brasil (2001), Butler (2016) e Agamben (2002, 2005), poderemos compreender os encontros que dessubjetivam as personagens Eduarda (Melo, 2004) e Flora (Siegal, 2014), que avalizam a desumanização no período gestacional das mulheres que acompanha a história da medicina, visto que, o parto era tido como um trabalho eminentemente feminino — sempre efetivado em ambiente doméstico — ocorrendo pela ausência de profissionais técnicos, isento de acompanhamento médico.
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Referências
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