NECROBIOPODER E SISTEMA PENAL

O ENCARCERAMENTO DE TRANSFEMINILIDADES NEGRAS COMO TECNOLOGIA DE DESUMANIZAÇÃO

Autores

DOI:

https://doi.org/10.9771/rds.v6i2.70226

Palavras-chave:

Encarceramento, LGBTQIA , Necrobiopoder, Transfeminilidades

Resumo

Este artigo analisa como a necropolítica, conceito desenvolvido por Achille Mbembe e mobilizado criticamente por Berenice Bento (necrobiopoder), opera na administração da morte e da vida de corpos racializados, em especial os corpos trans negros, no contexto do Estado-nação moderno. A partir de uma interlocução com a teoria queer de Judith Butler, particularmente seus escritos sobre vulnerabilidade, luto e enquadramento da violência, busca-se compreender de que modo os corpos trans negros são capturados por dispositivos normativos que os tornam matáveis, e como resistências emergem por meio de políticas corporais dissidentes. Como demonstram os parâmetros estabelecidos pelo CNJ (Resolução 348/2020), ainda largamente descumpridos no Brasil, o encarceramento de pessoas trans negras explicita a prisão como espaço de violação e desumanização. A análise fundamenta-se em revisão teórica crítica e em dados empíricos recentes (ANTRA, CNJ, Criola) sobre o encarceramento de transfemininas no Brasil, articulando-os a uma perspectiva interseccional que revela as engrenagens estatais de exclusão e morte. Ao situar o encarceramento de transfeminilidades negras na lógica necrobiopolítica, este artigo contribui para o debate crítico sobre as violações de direitos da população LGBTQIA+ no sistema penal brasileiro. Busca-se evidenciar o cárcere como uma tecnologia de exclusão e morte, denunciando como as instituições jurídicas e penais participam da marginalização e da criminalização de corpos dissidentes. Os resultados indicam que o cárcere opera como tecnologia necrobiopolítica de exclusão e desumanização, reforçando lógicas coloniais, racistas e cisheteronormativas, mas também que a própria existência de corpos dissidentes constitui potência de resistência e reconfiguração da cidadania.

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Biografia do Autor

Clarindo Epaminondas de Sá Neto

Advogado inscrito na OAB/BA e OAB/SC. Pós-Doutorado em Justiça Relacional pela Facultad de Derecho de la Universidad de Málaga (Bolsa/CAPES/PRINT/UFSC) 2022; Doutorado em Direito, Política e Sociedade pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Catarina (2015-2017). Mestrado em Direito Constitucional e Concretização de Direitos pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2013-2014). Especializado em Ciências Criminais (2009-2010) pelo Instituto JvsPodium/BA. É professor Adjunto do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Santa Catarina. Na graduação atua como procurador do Núcleo de Práticas Jurídicas da UFSC, com especial destaque para as áreas de Família, Cível, Consumidor, Penal e Trabalhista. Coordena o Grupo de Pesquisa em Direito Antidiscriminatório, braquitude, diversidades, racismos, gêneros, sexualidades, identidades não-binárias e suas relações com o Direito Constitucional e internacional dos Direitos Humanos, com o Direito Administrativo, com o Direito Civil e as tecnologias e com o sistema de justiça; Na Pós-graduação strictu sensu (mestrado e doutorado) atua nessas referidas áreas e também na de Métodos e Metodologias da Investigação Científico-Jurídica. Orientador de estágio de pós-doutorado do CCJ/UFSC.

Iverson Custódio Kachenski, em Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)

Mestre em Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Mestre em Estudos de Linguagens, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Doutorando em Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Porto Alegre. Rio Grande do Sul. Brasil.

Juliana de Sousa Santos, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Advogada, mestranda em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

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Publicado

2025-12-29

Como Citar

DE SÁ NETO, C. E.; CUSTÓDIO KACHENSKI, I.; SANTOS, J. de S. . NECROBIOPODER E SISTEMA PENAL: O ENCARCERAMENTO DE TRANSFEMINILIDADES NEGRAS COMO TECNOLOGIA DE DESUMANIZAÇÃO. Revista Direito e Sexualidade, Salvador, v. 6, n. 2, p. 165–185, 2025. DOI: 10.9771/rds.v6i2.70226. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revdirsex/article/view/70226. Acesso em: 3 jan. 2026.