Chamada de trabalhos – primeira e segunda edições de 2024

2023-07-12

 

A Políticas Culturais em Revista, publicação eletrônica da Rede de Estudos em Políticas Culturais divulga a chamada de trabalhos para a primeira e segunda edições de 2024 (v. 17, n. 1 e n. 2) que, além de artigos científicos e resenhas sobre Política Cultural e temáticas correlatas, contará com os seguintes dossiês temáticos:

 

Primeira edição de 2024

Dossiê Políticas culturais e utopias

Editores responsáveis: Lia Calabre (FCRB/UFF), Renata Rocha (UFBA) e Emiliano Fuentes Firmani (Universidad Nacional de Tres de Febrero)

No que diz respeito à práxis das políticas culturais, a primeira década do século XXI na América Latina é marcada pela construção de novas agendas políticas, somadas aos esforços de alguns países em elaborar legislações culturais e implementar planos de cultura. Tal contexto é certamente influenciado pelas eleições de governantes progressistas empenhados em estabelecer modelos socioeconômicos e políticos alternativos às políticas neoliberais das últimas décadas.

No bojo desse processo, a produção de conhecimento sobre as políticas e gestão da cultura também experimenta um período de grande desenvolvimento e interlocução entre os países da região, impulsionado por organismos internacionais, pelos entes públicos, instituições acadêmicas e também por coletivos e grupos culturais. Naqueles anos, fazendo frente à adoção de uma perspectiva formalista na gestão cultural, Eduardo Nivón Bolán (2006) asseverava a necessidade de escapar da letargia da administração, reorientando o olhar sobre os valores e conteúdos necessários para se construir políticas culturais democráticas. O propósito de transformação das políticas culturais deveria, portanto, se somar ao  ainda inconcluso processo de democratização da sociedade, no qual a cultura pode desempenhar um papel central para a construção de acordos que busquem objetivos compartilhados.

O breve momento de prosperidade é interrompido já na primeira metade da década de 2010. A crise político-econômica e institucional impõe múltiplos e complexos desafios para a ação e reflexão no campo da cultura. O acirramento da crise econômica, a ascensão da extrema direita, as guerras culturais fazem emergir influências temáticas e novos sentidos para a cultura que ultrapassam o setor cultural e se espraiam pela sociedade em escala global.

Em uma conjuntura que guardava diversas semelhanças com o momento atual, a Itália do entreguerras enfrentava, segundo Antonio Gramsci, uma “crise de autoridade”. Segundo esse autor, “A crise consiste justamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer: neste interregno, verificam-se os fenômenos patológicos mais variados" (GRAMSCI, 2007, p. 184). Hoje, ainda que por motivos diversos, também se evidencia a dissociação e descrédito, pelas grandes massas, do consenso que sustentou a dominação política nas últimas décadas pelos partidos e classes políticas estabelecidas (FRASER, 2020), tornando possível vislumbrar “a possibilidade e necessidade da formação de uma nova cultura” (GRAMSCI, 2007, p. 185).

Trata-se de um momento oportuno para refletir sobre os sentidos das políticas culturais. Ao discutir a conjuntura, também crítica, do fim da década de 1990 e início dos 2000, Milton Santos (2001, p.160) sugeria a superação da visão repetitiva do mundo que “(...) confunde o que já foi realizado com as perspectivas de realização. Para exorcizar esse risco, devemos considerar que o mundo é formado não apenas pelo que já existe (aqui, ali, em toda parte), mas pelo que pode efetivamente existir (aqui, ali, em toda parte). O mundo datado de hoje deve ser enxergado como o que na verdade ele nos traz, isto é, um conjunto presente de possibilidades reais, concretas, todas factíveis sob determinadas condições”.

Reivindica-se, assim, a pertinência da utopia, como defendia Celso Furtado (1984, p. 30), essa "ação de vanguarda (que) constitui uma das ações mais nobres a serem cumpridas pelos intelectuais nas épocas de crise". A utopia, não como o não-lugar de Thomas More em sua gênese (CHAUÍ, 2008), e sim aquela que, como em Santos (2001), se opõe a essa tendência à repetição. A Utopia que “(..) introduz a categoria do possível e por isso faz fratura na história (...), tanto nos pequenos movimentos que podem redirecionar uma vida a partir de uma pequena atitude como dentro do espectro dos movimentos sociais” (SOUSA, 2008, p. 2).

Diversos enfoques e vieses podem ser ressaltados, neste dossiê. Seja assumindo a política cultural como “[...] o processo posto em ação quando conjuntos de atores sociais moldados por e encarnando diferentes significados e práticas culturais entram em conflito uns com os outros” (ALVAREZ; DAGNINO; ESCOBAR, 2000, p. 24-25), seja por meio de estudos de caso ou a partir de propostas teóricas de “estratégias simbólicas para tomar as ruas” (VICH, 2021). Dentre os temas de reflexões teórico-conceituais ou estudos de experimentos sobre os modos de “construir um bloco contra-hegemônico capaz de nos levar além da crise atual, na direção de um mundo melhor” (FRASER, 2020) no âmbito das políticas culturais, cabe destacar:

  • Políticas culturais que conjuguem perspectivas igualitárias de distribuição e políticas inclusivas de reconhecimento e diálogos interculturais;
  • O atravessamento entre as políticas culturais e novas culturas políticas que contribuam para o fortalecimento dos sujeitos, das cidadanias, dos territórios e do meio ambiente;
  • Interseções e interfaces entre aspectos de gênero, sexo, raça, faixa etária e classe e as políticas culturais;
  • Políticas culturais em contextos, espaços e movimentos culturais insurgentes;
  • Desafios e perspectivas da dataficação, plataformização e inteligência artificial nas políticas culturais;
  • Politização do campo cultural e estratégias de construção de políticas culturais democráticas.

Convidamos, portanto, as pessoas interessadas a irem em busca de nuances, questões e abordagens que instiguem e façam jus à nossa (inventada?) tradição latinoamericana do necessário exercício da utopia nas políticas culturais.

Recebimento de artigos até 30 de novembro de 2023. Previsão de publicação no primeiro semestre de 2024.

 

Referências

ALVAREZ, Sônia E.; DAGNINO, Evelina; ESCOBAR, Arturo. Introdução: o cultural e o político nos movimentos sociais latino-americanos In: _____ (org.). Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos: novas leituras, Belo Horizonte, Editora da UFMG, 2000.

CHAUI, Marilena. Notas sobre Utopia. Ciência e Cultura, São Paulo , v. 60, n. 1, p. 7-12, jul. 2008. FRASER, Nancy. O velho está morrendo e o novo não pode nascer. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

FURTADO, Celso. Cultura e desenvolvimento em época de crise. 1ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1984.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 3: Maquiavel. Notas sobre o Estado e a política. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

NIVÓN BOLÁN, Eduardo. La política cultural. Temas, problemas y oportunidades. México: Ciudad de México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 2006.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 1ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. Record, 2001.

SOUSA, Edson Luiz André de. Por Uma Cultura da Utopia, E-topia: Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia, n.º 12, 2011.

VICH, Víctor. Políticas culturales y ciudadanía: estrategias simbólicas para tomar las calles. Buenos Aires: CLACSO / Lima: Instituto de Estudios Peruanos / Rosario: Editorial de la Facultad de Humanidades y Artes de la Universidad Nacional de Rosario, 2021.

 

 

Segunda edição de 2024

Dossiê Cultura é Trabalho

 

Editores responsáveis: Adriana Facina (UFRJ), João Domingues (UFF) e Kyoma Oliveira (UFBA)

 

A concepção materialista do conceito de cultura nos apresenta a necessidade de compreender os fenômenos culturais não só como expressões artísticas, mas também como modos de vida. Para Marx e Engels (2007) tais modos de vida encontram-se diretamente ligados às condições de produção e reprodução da vida em determinados contextos históricos.

À luz desta mirada, investigar a produção de cultura no contexto de radicalização do capitalismo e do seu processo de neoliberalização implica deparar-se com as condições materiais de existência das produtoras e produtores de cultura. Obliteração dos direitos trabalhistas, impossibilidade de fruir de um processo contínuo de formação, intermitência no desempenho das atividades, jornadas exaustivas e a pluriatividade são alguns exemplos do modo como a reprodução da vida das trabalhadoras e dos trabalhadores da cultura é condicionada na contemporaneidade. Somada às condições precárias de trabalho expressadas acima, a contradição entre Capital e Trabalho, quando analisada sob o ponto de vista da cultura, evidencia também as novas possibilidades de organização da vida material a partir de lógicas outras que não se encerram na acumulação.

Isto posto, o presente dossiê busca reunir discussões em torno da polissemia proposta em seu título. Entendemos aqui que a cultura é trabalho no sentido marxiano do termo, uma vez que a relação sociometabólica entre os seres humanos e o mundo material produz diferentes modos de vida. E cultura é trabalho também porque na contemporaneidade grande parte as produtoras e produtores de cultura pertencem à classe que vive do trabalho e portanto enfrentam problemas desdobrados da contradição estrutural citada.

 

As linhas gerais sugeridas para esse dossiê são:

  1. As políticas culturais e o trabalho com a cultura;
  2. Aspectos de classe,  gênero, raça e geração na produção cultural;
  3. Impactos do trabalho precário na saúde das trabalhadoras e trabalhadores do campo da cultura;
  4. Estado, fundos públicos e o direito ao trabalho na cultura;
  5. Movimentos sociais e demandas de políticas culturais;
  6. Cultura, trabalho e a produção capitalista do espaço urbano;
  7. Direitos autorais, direitos de propriedade, circulação e democratização da produção cultural;
  8. As condições de trabalho na economia da cultura

 

Referências

GAGO, Verónica. A Razão Neoliberal: economias barrocas e pragmática popular. São Paulo: Elefante, 2018.

KATZ, Cindi. Capitalismo Vagabundo e a Necessidade da Reprodução Social. Trad. Gilberto Cunha Franca e Valeria Fontes. In: Geousp – Espaço e Tempo (Online), v. 23, n. 2, p. 435- 452, ago. 2019. ISSN 21z79-0892.

MARX, Karl; ENGELS Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauere Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, Livro I, 2013.

WILLIAMS, Raymond. Cultura e Materialismo. São Paulo: UNESP, 2011.

 

Recebimento de artigos para o dossiê Cultura é Trabalho: até 29 de fevereiro de 2024, exclusivamente pelo sistema da Revista.